Avanços da Edição Genômica na Zootecnia: Precisão Genética para uma Produção Animal Sustentável e Eficiente
A zootecnia contemporânea tem testemunhado avanços significativos impulsionados pela biotecnologia, com destaque para as ferramentas de edição genômica, como o sistema CRISPR-Cas9. Esta tecnologia permite modificações precisas no material genético dos animais de produção, abrindo novas perspectivas para o incremento da produtividade, da saúde animal e da sustentabilidade dos sistemas de produção. A capacidade de editar genes específicos possibilita o desenvolvimento de animais com características desejáveis, como maior resistência a doenças, melhor eficiência na conversão alimentar e adaptação a diferentes condições ambientais.
No campo da sanidade animal, a edição genômica apresenta um potencial transformador. Pesquisas têm se concentrado em conferir resistência genética a enfermidades de alto impacto econômico e sanitário. Um exemplo notável é o estudo de Burkard et al. (2018), publicado na Journal of Virology, que demonstrou a eficácia da edição do gene CD163 em suínos, resultando em animais completamente resistentes à infecção pelo vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína (PRRSV). Este vírus é responsável por perdas econômicas massivas na suinocultura global. A estratégia de inativar ou modificar o gene que codifica o receptor CD163, essencial para a entrada do vírus nas células do hospedeiro, impede a infecção e a replicação viral, representando um avanço considerável no controle dessa doença.
Paralelamente, a busca por uma pecuária mais sustentável tem encontrado na edição genômica uma aliada promissora, especialmente no que tange à mitigação do impacto ambiental. A produção de metano entérico por ruminantes é uma das principais fontes de gases de efeito estufa na agropecuária. Embora a edição genômica para redução direta de metano em bovinos ainda esteja em fases de pesquisa mais exploratória e com resultados complexos dependendo da abordagem (alterações no microbioma ruminal ou diretamente no metabolismo do animal), o foco em eficiência alimentar indiretamente contribui para este objetivo. Pesquisas como as sumarizadas no review de Mueller et al. (2019) para a Animal Frontiers discutem como a seleção genômica e, potencialmente, a edição gênica podem levar a animais que utilizam os nutrientes de forma mais eficiente. Animais mais eficientes na conversão alimentar demandam menor quantidade de alimento para produzir a mesma quantidade de carne ou leite, o que, por sua vez, pode levar a uma menor produção de metano por unidade de produto e a um menor uso de recursos naturais.
Outra vertente importante é o aprimoramento da qualidade dos produtos de origem animal e do bem-estar. A edição de genes pode ser utilizada para, por exemplo, aumentar a produção de determinados ácidos graxos benéficos no leite ou na carne, ou para desenvolver raças naturalmente sem chifres (mochas), evitando o procedimento de descorna, que é uma questão de bem-estar animal. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Davis, e da empresa Recombinetics (Carlson et al., 2016), publicado na Nature Biotechnology, demonstrou a criação de bovinos da raça Holandesa geneticamente deschifrados através da introdução da variante alélica "POLLED" por edição de precisão com TALENs, uma outra ferramenta de edição genômica. Este avanço evita a necessidade da descorna física, um procedimento que pode causar dor e estresse aos animais.
A implementação da edição genômica na rotina da produção animal envolve, contudo, a necessidade de um debate aprofundado sobre aspectos regulatórios, éticos e de aceitação pública. A garantia da segurança alimentar, a avaliação de possíveis efeitos não intencionais no genoma e o bem-estar dos animais editados são pontos cruciais que devem ser rigorosamente considerados. Para a comunidade zootécnica, é fundamental acompanhar de perto esses desenvolvimentos, compreendendo tanto o potencial técnico quanto as implicações mais amplas dessas tecnologias, a fim de contribuir para sua aplicação responsável e benéfica para o setor e para a sociedade.
Fontes:
BURKARD, C. et al. Pigs lacking the Scavenger Receptor Cysteine-Rich Domain 5 of CD163 are resistant to Porcine Reproductive and Respiratory Syndrome Virus
CARLSON, D. F. et al. Production of hornless dairy cattle from genome-edited cell lines. Nature Biotechnology, v. 34, n. 5, p. 479-481, 2016.
MUELLER, L. F.; LUCKOLAI, H. P. T.; VAN EENENNAAM, A. L. Symposium review: Applications of gene editing in intensively and extensively managed livestock industries. Animal Frontiers, v. 9, n. 3, p. 13-20, 2019.

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