A pneumonia em bezerros neonatos representa uma das principais causas de morbidade e mortalidade nessa faixa etária, gerando consideráveis perdas econômicas na pecuária. Dentre os diversos fatores de risco associados ao desenvolvimento de afecções respiratórias, a falha nos cuidados com o umbigo logo após o nascimento desponta como uma porta de entrada crucial para microrganismos patogênicos. A ausência de uma desinfecção umbilical adequada e eficiente pode desencadear um processo infeccioso local, conhecido como onfalite, que frequentemente evolui para quadros sistêmicos, culminando, entre outras complicações, na pneumonia.
O cordão umbilical, no período pós-natal imediato, consiste em uma estrutura vascularizada que mantém comunicação direta com a cavidade abdominal e a corrente sanguínea do animal. Essa característica o torna particularmente vulnerável à invasão de bactérias presentes no ambiente, especialmente em locais com condições higiênico-sanitárias deficientes (Meglia, 2002). Agentes como Escherichia coli, Staphylococcus spp., Streptococcus spp., e Trueperella pyogenes são frequentemente isolados em infecções umbilicais e suas sequelas (Constable et al., 2017; Fecteau; George, 2004).
Quando a antissepsia do coto umbilical não é realizada ou é feita de maneira inadequada, esses microrganismos colonizam a região, multiplicam-se e podem ascender pelas estruturas umbilicais (artérias, veia e úraco), causando inflamação e infecção local. Essa onfalite, se não tratada, pode progredir para uma bacteremia ou septicemia, à medida que os patógenos e suas toxinas ganham acesso à circulação sistêmica (Radostits et al., 2007).
Uma vez na corrente sanguínea, as bactérias podem se disseminar para diversos órgãos e sistemas, estabelecendo focos infecciosos secundários. Os pulmões são órgãos frequentemente afetados nesse processo de disseminação hematogênica, devido à sua alta vascularização e função de filtro. A chegada e multiplicação bacteriana no parênquima pulmonar desencadeiam uma resposta inflamatória que caracteriza a pneumonia (Blood; Radostits, 1991; McGUIRK, 2008). Bezerros com pneumonia de origem umbilical podem apresentar sinais clínicos como febre, dispneia, tosse e secreção nasal purulenta, além dos sinais de onfalite, como aumento de volume, dor e presença de pus na região umbilical.
Fatores como a falha na transferência de imunidade passiva, decorrente da ingestão insuficiente ou tardia de colostro de boa qualidade, e a exposição a um ambiente contaminado exacerbam a susceptibilidade dos neonatos a essas infecções (Riet-Correa et al., 2007). Portanto, a cura de umbigo, realizada imediatamente após o nascimento com soluções antissépticas eficazes, como o iodo a 7-10%, e repetida conforme necessário, associada a boas práticas de manejo e higiene no ambiente de parição e criação dos bezerros, são medidas profiláticas essenciais para prevenir as onfalopatias e suas graves consequências, incluindo a pneumonia.
Fontes
BLOOD, D. C.; RADOSTITS, O. M. Clínica veterinária. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.
CONSTABLE, P. D.; HINCHCLIFF, K. W.; DONE, S. H.; GRÜNBERG, W. Veterinary medicine: a textbook of the diseases of cattle, horses, sheep, pigs, and goats.
FECTEAU, G.; GEORGE, L. W. Umbilical disorders. In: ANDERSON, D. E.; RINGS, D. M. (Eds.). Current veterinary therapy: food animal practice. 5th ed. St. Louis: Saunders Elsevier, 2004. p. 118-123.
McGUIRK, S. M. Disease management of newborn dairy calves. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, v. 24, n. 1, p. 139-153, 2008.
MEGLIA, G. E. Enfermidades dos bezerros neonatos. Jaboticabal: Funep, 2002.
RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; HINCHCLIFF, K. W.; CONSTABLE, P. D. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara
RIET-CORREA, F.; SCHILD, A. L.; LEMOS, R. A. A.; BORGES, J. R. J. Doenças de ruminantes e equídeos. 3. ed. Santa Maria: Pallotti, 2007. v. 1.

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